Impressões africanas
Esse é um post sobre as impressões que tive ao viajar para a África, onde fiquei nas Ilhas Maurício e na África do Sul.
Primeiramente visitei as Ilhas Maurício, conjunto de ilhas que é literalmente um paraíso, (inclusive fiscal) o que atrai uma impressionante quantidade de bancos e empresas para a capital Port Louis e faz o país parecer um desfile de carros importados em Campos do Jordão em alta temporada. As Ilhas Maurício têm ainda o maior IDH da África e economia diversificada em torno da cana de açúcar, turismo e indústria de tecidos.
O que mais impressiona nas Ilhas é a sua mistura, o país é composto de Indianos, Árabes, Chineses, e de maioria Hindu. Os Mauricianos são muito orgulhosos dessa mistura e o que impressiona mais é que o país que eu visitei logo em seguida foi a África do Sul, historicamente um país com problemas com essa mesma mistura. O Slogan de recepção do país é “Vários povos, várias religiões, um só país” que me fez lembrar mais uma vez o Brasil.
Ilhas Maurício não tem aquela nossa imagem brasileira de África, surfa no desenvolvimento chinês e indiano, inclusive pela proximidade. O país é uma grande mistura de raças e cores, como o Brasil, o país lembra um pouco o Rio de Janeiro pelo clima e a colonização foi muito parecida com a brasileira. O ensino de línguas é obrigatório para o Inglês e o Francês, o que torna o país ainda mais atraente.
A influência Hindu, que representa mais de 80% da população do país torna aquele país bem agradável e receptivo, no passado o país foi um importante ponto de passagem no caminho entre a Ásia e a África e aprendeu a tornar-se receptivo. As ilhas Maurício praticamente não tem problemas sociais graves, não vi nenhum policial nas ruas em 7 dias no país e o desenvolvimento fala por si só. O país é um grande exemplo do que a África poderia ser.
Chegando à África do Sul, muitas boas surpresas se sucederam.Um motorista sulafricano, negro, com esperança em abrir uma empresa na área de biocombustíveis, foi a primeira delas. Há muito terreno livre na África do Sul, mesmo nos grandes centros e a tecnologia de biodiesel faria muito bem por lá.
A África do sul teve a primeira votação na qual negros poderiam votar em 1994, o povo valoriza a democracia, apesar de alguns percalços. Temos um Maluf por lá, a segunda mulher de Nelson Mandela, Winnie, que já foi declarada culpada por corrupção e tráfico de diamantes, mas a lei “ficha limpa” sulafricana somente funciona para o cargo de presidente, cargo que ela ocuparia se pudesse concorrer, hoje ela ocupa uma cadeira na área legislativa do país.
Uma propaganda chamou minha atenção, era de uma empresa que vendia diamantes e dizia “Crise is so last year”, ou seja, vamos consumir! Não se vê sinais de crise no país, assim como no Brasil. A copa fez muito bem ao país, Joanesburgo parece São Paulo pela quantidade de prédios e empresas, o que impressiona bastante para quem não tinha nenhum conhecimento sobre o local.
A sensação é que o apartheid acabou, mas ainda há grupos que resistem à ideia. Recentemente um grupo de jovens brancos foi declarado culpado por misturar urina na comida de crianças negras. O que impressiona na relação do país com o fim do Apartheid, que apesar de extremamente recente, parece ter havido um perdão àqueles que tanto o fizeram sofrer. Um exemplo disso que falei foi mais de um relato indicando que não houve torcida contra a Holanda na final da copa, por terem sido descendentes de holandeses os responsáveis pelo apartheid, era de se esperar um certo rancor, que eu simplesmente não vi na minha curta passagem de três dias pelo país, parece que Mandela foi bem sucedido em passar a mensagem de basta também para os negros sulafricanos.
Empresas parecem participar pouco socialmente no país, segundo informações atuam mais diretamente na área de educação. Me impressionou ainda a esperança que o Futebol desperta sobre a população, é a chance que negros e pobres têm de conseguir uma situação digna, basta para isso correr atrás de uma bola e torcer para dar certo como Samuel Eto´o, me lembra um certo país do futebol.
É interessante lembrar de como nasceu o apartheid, assunto pouco lembrado nas nossas escolas. O apartheid teve início de forma branda, buscando dar empregos públicos e oportunidades para brancos, em um “sistema de cotas” às avessas. A partir das primeiras distorções o governo que só governava para os brancos passou a gradativamente privilegiar somente os brancos, em um efeito manada que gerou ódio, mortes e um dos piores episódios da humanidade, que demonstraram aquilo que o Ser Humano pode fazer de pior.
Fico me perguntando se o que a gente faz no Rio de Janeiro hoje não é um apartheid, com educação de qualidade para classe média e alta, condição de pagar planos de saúde, moradia digna, tudo isso só existe no nosso Estado para classe média e alta, pobre no Rio de Janeiro depende da SAMU, fica submetido às leis do tráfico ou de milícias e tem que estudar em escolas públicas de qualidade que ganha somente do Piauí.
Ou sou só eu que acho que só temos governo municipal e estadual para classe média e alta por essas bandas?
No livro Átomo Social sobre o qual farei um post depois, o autor indica que há um padrão na queda de grandes impérios, eles sempre caem quando a desigualdade assume índices insustentáveis. Tudo bem que não temos um império, mas quando parte da população entender que está simplesmente fora do jogo, como a população não branca Sulafricana percebeu, teremos uma revolução.
Há toda uma terra de oportunidades para a África negra que um dia foi de colonizadores e hoje pertence a seu povo, que a está reconquistando, boa sorte para eles nessa luta, e que nosso povo sofrido também encontre seu caminho.

1 Trackback or Pingback for this entry:
[...] ido somente a Joanesburgo e Pilanesberg, como turista. Falei um pouco sobre isso aqui, no post Impressões africanas. Então levem em consideração que conheci somente a África [...]