Para este trabalho desenvolveremos um breve estudo sobre a ligação entre a ética, a consciência pessoal e a responsabilidade social corporativa.
O termo ética deriva do grego ethos (caráter, modo de ser de uma pessoa). Ética é um conjunto de valores morais e princípios que norteiam a conduta humana na sociedade, ou pelo menos deveriam nortear. A ética serve para que haja um equilíbrio e bom funcionamento social, possibilitando que ninguém saia prejudicado. Neste sentido, a ética, embora não possa ser confundida com as leis, está relacionada com uma sensação de justiça, um direito da maioria sobre a minoria.
Responsabilidade social corporativa (RSC), é elencado em PEREIRA e CAMPOS (2007, p. 6) de duas formas:
“McWilliams (2001) define RSC como um conjunto de ações que parecem oferecer ganhos sociais além dos interesses básicos da empresa e do que é requerido por lei, significando que a mesma deve ir além dos limites legais da organização e que a atuação empresarial permeia o ambiente interno, tal como todos os demais fatores externos aos quais a organização está diretamente relacionada ou não.
Já Daft (1999) ratifica esse entendimento, mas destaca que a responsabilidade social da empresa baseia-se na obrigação da administração de tomar decisões e ações que irão contribuir para o bem-estar e os interesses da empresa não se restringe exclusivamente à gestão do negócio, fomentando a geração de riqueza e a obtenção de lucro, mas também ao desdobramento e respectiva influência de suas ações no âmbito social.”
O estudo da ética nos leva a encarar ações que são tidas como comuns em nosso cotidiano e repensá-las em um contexto maior, levando em consideração o que já foi desenvolvido por sociólogos e filósofos em relação a esta ciência.
Vimos que o conceito de responsabilidade social prevê ir além das responsabilidades. A ética e a consciência relacionam-se com esse conceito de forma a elevar a capacidade de atuação das empresas, agindo além do que exige a legislação, que muitas vezes fica aquém dos preceitos éticos.
É importante entender que a ética varia de acordo com o local e a sociedade na qual ela está envolvida. Como um exemplo podemos citar a ética médica, que varia muito de acordo com o país envolvido, porém TAM normas éticas internacionais, constantemente em conflito.
Em um contexto globalizado essa vertente é especialmente importante, o que pode ser considerado ético na atuação de determinada empresa em seu país pode ser mais rigoroso ou menos rigoroso que a ética local.
A ISO 26000, construída com o intento de ser uma norma que traz unidade ao conceito de responsabilidade social indica que as empresas devem atuar da forma mais rigorosa na qual esteja envolvida para ter uma atuação entendida como ética. Por exemplo, se as demandas ambientais são menores num país africano do que em um país europeu, uma empresa européia não deveria aproveitar-se disso para obter uma vantagem competitiva. Caso semelhante a este exemplo sofreu a Nike, cuja contratada asiática aproveitou-se de mão de obra infantil para produzir parte de seus tênis, o caso chegou à mídia internacional e a Nike foi extremamente impactada em termos de vendas, imagem corporativa, impactando diretamente seu resultado financeiro e sua capacidade de conseguir empréstimos.
O caso da Nike é especialmente importante do ponto de vista do conflito ético, pois as leis americanas não exigem responsabilidade sobre a atuação dos seus fornecedores e são extremamente reativas quanto à questão de esfera de influência, porém a sociedade tem conceitos éticos que indicam que não seria correto comprar produtos oriundos de mão de obra infantil.
A credibilidade da instituição é o reflexo da pratica de valores como a integridade, honestidade, transparência, qualidade do produto, eficiência do serviço, respeito ao consumidor, entre outros. É importante relembrar que uma empresa é feita de pessoas, a cultura desta empresa é feita do conjunto de ideais, idéias, valores, atitudes e aptidões de seu público interno. Que os princípios e valores eleitos pelos seus fundadores e que impregnam a cultura da organização são éticos. Que seus colaboradores, desde a alta administração até o ultimo contratado, devem zelar pela conduta ética, e procurar exercer a liberdade com responsabilidade, tanto no seu relacionamento interno, como com o público externo para que se tenha uma atuação realmente ética.
Recentes escândalos em empresas vêm reacendendo as discussões sobre ética nas empresas e na sociedade. Como exemplos podemos citar casos nacionais, como o Banco Panamericano, envolvido em um golpe contábil realizado para camuflar a saúde financeira da empresa, ou o caso de Antonio Palocci, cujo patrimônio multiplicou por 20 vezes em poucos anos, e, apesar de não ter infringido a lei, feriu questões éticas esperadas de um homem público.
Os casos internacionais também são extensos e envolvem o caso Enron e Worldcom, cuja maquiagem contábil prejudicou milhares de acionistas, culminando com o fechamento da empresa, demissões, perdas milionárias e perda de credibilidade por parte das agências reguladoras e agentes auditores, que davam a chancela aos relatórios contábeis. Estes casos, inclusive, geraram toda uma nova legislação vinculada à prestação de contas, responsabilização dos administradores e à transparência das empresas, a chamada lei Sarbanes-Oxley.
A crise imobiliária americana, cujos atores principais foram Goldman Sachs, Lehman Brothers, J. P. Morgan, Merryl Lynch e a seguradora AIG que envolveu o mundo inteiro na chamada crise do subprime, onde títulos imobiliários eram vendidos em pacotes, sem a devida consciência de quem os estava comprando, os bancos agiam vendendo pacotes com juros atrativos, já que os produtos eram mais arriscados, porém, sem a devida consciência dos riscos envolvidos.
Recentemente a Siemens teve diretores responsabilizados quanto à criação de caixa 2 que seria vinculado a propinas para conseguir projetos, sendo o mais famoso caso as olimpíadas de Atenas, não tendo sido concluído o caso até agora. Especificamente neste caso pode ter sido envolvido até 100 milhões de Euros da empresa, não estando claro se seu envolvimento foi cúmplice ou se a empresa foi prejudicada. (http://www.dw-world.de/dw/article/0,,2243895,00.html). Esse modo de operar, através de propinas, põe em xeque a meritocracia pregada pela democracia ocidental e o próprio sistema capitalista, gerando uma crise de confiança entre os atores envolvidos.
Questionamentos sobre o modus operandi das empresas e sobre as conseqüências das suas decisões sobre governos, comunidades, público interno e outros públicos de interesse também corroboram a ideia de uma discussão mais ampla sobre sua atuação. De acordo com uma visão ética moderna, as empresas possuem impactos que podem e devem ser reconhecidos e tratados de forma correta, transparente e proporcional.
Dois conceitos importantes levantados pela ISO 26000, que obteve 93% de aprovação dos países que fazem parte da ISO, que é uma norma que se propõe a ser a norma que dita a responsabilidade social de forma internacional, são os conceitos de accountability e due diligence.
O conceito de accountability entende que “convém que a organização preste contas e se responsabilize por seus impactos na sociedade, na economia e no meio ambiente.”
Já o conceito de due diligence indica que “as organizações têm a responsabilidade de exercer a due diligence para identificar, prevenir e acordar impactos reais ou potenciais nos direitos humanos resultantes de suas atividades ou de atividades daqueles com quem se relaciona. A due diligence também pode alertar uma organização sobre a responsabilidade de influenciar o comportamento de outros quando eles possam ser causa de violações de direitos humanos e em que a organização possa, de alguma forma, estar implicada.
Dessa forma podemos ver como os conceitos de ética, consciência e responsabilidade social vêm interagindo de forma que um atenda o outro.
O conceito de responsabilidade social vem evoluindo no sentido de afastar-se de ações pontuais e filantrópicas para uma atuação corporativa integrada, homogênea, que reconhece e mitiga seus impactos, que presta contas sobre a sua atuação de forma transparente, ética e sustentável, além de permitir desenvolvimento conjunto das comunidades onde atua.
Diante deste quadro, políticas anti-corrupção, códigos de ética, auditorias internas e outras ferramentas de gestão vêm atuando para tentar garantir que haja uma responsabilidade social corporativa baseada em critérios éticos na empresa.
Em nossa visão o maior conflito ético das empresas é que as maiores empresas exercem um papel desequilibrado em relação aos demais atores, portanto, achar o ponto ideal entre garantir os interesses da empresa e não causar prejuízo a outros públicos é um dos maiores conflitos éticos atuais do mundo corporativo.
Um dos maiores desafios da sociedade em relação à questão ética é a prioridade. Muitas possuem programas, incentivos ou até auditorias comportamentais, porém, a questão ética não está presente na cultura da maioria das empresas, onda as decisões são tomadas em sua maioria considerando somente a dimensão econômica, sem levar em conta a dimensão ética da escolha.
Outra questão relacionada à ética das empresas é a cumplicidade. Uma vez que a empresa tem influência direta sobre governos, parceiros e principalmente, fornecedores. É crítica a “terceirização” da responsabilidade de grandes empresas, que através de seus fornecedores desrespeitam de forma indireta direitos humanos, trabalhistas, entre outros. A legislação brasileira compreende parte dessa responsabilidade e traz os conceitos de responsabilidade solidária (total) ou subsidiária (parcial), porém, muitas vezes a legislação atende somente aos preceitos trabalhistas, deixando de lado questões humanas e éticas.
Os problemas éticos das empresas causam grandes prejuízos econômicos, imagem e de valor de mercado, podendo dificultar acesso a mercados, acesso ao crédito ou mesmo causar o fechamento de postos de trabalho em casos mais extremos. NASH, (1993, pág. 4) resume bem a questão: “Os administradores percebem os altos custos impostos pelos escândalos nas empresas: multas pesadas, quebra da rotina normal, baixo moral dos empregados, aumento da rotatividade, dificuldades de recrutamento, fraude interna e perda da confiança pública na reputação da empresa”.
A questão ética influenciará diretamente o sucesso das empresas, pois a pressão de diferentes públicos de interesse por uma gestão ética e responsável somente aumenta dia após dia. Como exemplo temos o caso do Conar (http://www1.folha.uol.com.br/mercado/926554-conar-cria-normas-para-apelos-de-sustentabilidade-na-publicidade.shtml), que recentemente passou a exigir que as empresas com apelos de sustentabilidade possam comprovar que efetivamente há uma vantagem para o meio ambiente ou para a sociedade no momento de aprovar uma campanha, é somente uma questão de tempo para alguma empresa colocar em prática o “greenwashing” e ser devidamente punida pelo Conar.
Os dilemas éticos vêm acompanhados pela questão da falibilidade humana. A ética será, portanto, uma eterna busca humana contra os desejos de fazer algo que conscientemente entendamos que não é certo. Caberá aos profissionais de todas as áreas, e não somente à área que cuida da ética dentro da empresa cuidar deste importante tópico nas empresas e na sociedade como um todo.
A ciência da administração enxerga a falta da dimensão ética nas decisões suicida para as empresas, pois ela é essencialmente de curto prazo, e as empresas precisam planejar com visão de longo prazo, trazendo benefícios mútuos aos públicos de interesse.
Defendemos assim que haja por parte das empresas, apelos, campanhas, códigos de ética devidamente divulgados e com punições previstas às suas infrações, auditorias comportamentais efetivas e igualitárias para todas as classes da empresa.
Porém, sabemos que a mudança começa por nós mesmos, e que a melhor forma de educar é pelo exemplo. Que parta de cada um de nós a mudança que queremos ver no mundo.
Bibliografia:
PEREIRA, Wolney Afonso; CAMPOS FILHO, Luiz Alberto Nascimento . Investigação sobre as semelhanças entre os modelos conceituais da responsabilidade social corporativa. RGSA – Revista de Gestão Social e Ambiental. v.1, n.1, p.3-18, . jan-abr: 2007
ABNT NBR ISO 26000:2010 Norma de Responsabilidade Social
NASH, Laura L. Ética nas empresas – Boas intenções à parte. Makron books 1993.
Links:
http://www1.folha.uol.com.br/mercado/926554-conar-cria-normas-para-apelos-de-sustentabilidade-na-publicidade.shtml)
http://www.dw-world.de/dw/article/0,,2243895,00.html
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