Categoria: Socialwashing


Algo sempre me incomodou foi a nossa soberba e a crença que temos a certeza absoluta de todas as soluções  sobre os problemas do mundo.

 

O tópico hoje é a África.

 

Tive a oportunidade de conhecer parte do continente,  conhecendo seu país com maior renda per capita (Ilhas Maurício) e a África do Sul, o país mais desenvolvido, tendo ido somente a Joanesburgo e Pilanesberg, como turista. Falei um pouco sobre isso aqui, no post Impressões africanas. Então levem em consideração que conheci somente a África “rica”.

 

Sou um apaixonado pela história africana, acreditando que ela tem muito a nos ensinar, ao contrário do que prega “nossa” cultura colonizadora (sim, pois a absorvemos, apesar de termos sido colônia).  A África, ao tentar viver como os Europeus, se dividiu e causou auto-destruição como poucas vezes foi visto na história da humanidade.

 

E aí chegaram os colonizadores, assim como os jesuítas resolveram o “problema da religião”, para “resolver o problema da fome”, ainda que esse problema tenha sido causado por eles próprios ao colonizarem e dividirem o continente. Essa emocionante palestra feita no TED agora em 2011, mês passado, ending hunger now (algo como acabando com a fome agora), nos dá a doce ilusão que podemos acabar com o problema. Quem acompanha meu blog sabe que sou fã do TED, tendo inclusive organizado um evento TEDx de forma independente, o TEDxSudeste, e minha admiração pelo evento. Não vou considerar a palestra inteira uma bola fora, estou somente fazendo uma reflexão crítica. Antes, porém, gostaria de elogiar o vídeo e a ideia pela excelente apresentação e pelos dados apresentados, que podem dar viabilidade a políticas de verdade. Outro ponto forte é o fato de já ter “abandonado” 30 países que agora conseguem ser autossustentáveis.

 

Porém, ao ler os comentários sobre como os indivíduos podem ajudar no combate à fome podem ser vistos alguns africanos indicando que a solução da fome está longe de ser a ONU (até pela razão da ONU estar na África há algumas décadas). Alguns aceitam a ajuda de “curto prazo”, mas culpam o governo, outros, mais radicais defendem o fim das doações de alimentos e pedem lobby e pressões externas sobre governos totalitaristas. No meu ver faltam políticas efetivas nesse sentido, onde a manutenção de governantes pode significar importação de diamantes a baixo custo, petróleo com condições subhumanas de produção e acesso a outros minérios com preço baixo.

 

O que talvez nós não nos demos conta é que legitimamos estes governos de vários países africanos ao realizar tais doações, pois a pressão interna é menor se as pessoas tiverem o que comer. Não vou entrar bem no mérito se podemos ou não resolver o problema da fome, olhando do ponto de vista micro, vemos que as doações funcionam, mas sob um olhar macro vemos que ela pode causar mais mazelas que soluções. Há correntes africanas fortes nesse sentido, as quais ainda não tive oportunidade de ler, mas da qual a autora Dambisa Moyo, autora do livro Dead Aid é um estandarte.

 

Para reflexão, as doações ao continente aumentaram 200% de 2000 a 2007, chegando a quase 40 bi em 2007, comparem esse valor ao valor citado no vídeo acima como sendo necessário para acabar com a fome e lembrem que o número de quase 40 bi é de 2007.

 

Mas parece que o TED não ouviu o próprio TED, no talk o perigo da história única, uma nigeriana dá uma bela palestra sobre considerar outros pontos de vista, além do grupo crítico que compõe os comentários e da abertura a outras opiniões.Essa é a razão de eu gostar tanto do TED.

Ajudar o alemão agora é fácil

Cada vez me convenço mais que ninguém quer resolver a questão social no Brasil, precisamos de uma mídia forte, precisamos mostrar a realidade de uma forma propositiva, mas isso não traz anunciante, anunciante sustenta a tv e isso é o sistema, e você já sabe, o sistema é f…

Penso que seja natural a escolha por comunidades nas quais haja a presença do Estado, durante o período que trabalhei com projetos sociais sempre evitei áreas de risco por diversas razões: intromissão de traficantes, desconhecimento das “regras”do local, inexperiência e medo, na sua mais pura forma.

Depois do tropa de elite 3, transmitido ao vivo pela Rede Globo de Televisão, o freak show agora vem em formato de melodrama mexicano, da pior qualidade às nossas casas com programas de tv e matérias de jornal mostrando a “realidade” das comunidades recentemente ocupadas, o que chega na grande mídia é um melodrama travestido de otimismo.

Fiquei me perguntando a quem interessava aquela cobertura absurda que por diversas vezes atrapalhou o trabalho da polícia, anunciou o cerco, deu tempo aos bandidos para fugirem (e nem precisava da Net gato pra isso). Agora vejo minha pergunta respondida, Luciano Huck, Angelica, Ana Maria Braga, atores da Globo e outros demagogos de plantão aproveitam a oportunidade para subir o ibope, aproveitando o grande golpe que o Estado deu no tráfico da ex-cidade maravilhosa. Para mim isso é demagogia.

Não bastasse me fazer aturar o José Padilha como comentarista de segurança agora a grande mídia explora a miséria, fruto de DÉCADAS de ausência do Estado em uma das áreas que costumava ser uma das mais violentas do estado a globo explora cada segundo possível o drama da pobreza existente nesse local.

Queria frisar que esse post não é uma campanha contra a globo, mas claramente alguns canais de mídia tinham a intenção de discutir o problema e buscar soluções, e em momento algum vi essa intenção nos canais de mídia da família Marinho. Para citar um bom caso trago o programa Roda Viva que foi realizado com @Rene_Silva_Rj , @jacksoncomunidade e com Luiz Eduardo Soares.

Volto aos meus questionamentos: Havia outras favelas pacificadas e não vi um global por aquelas bandas, só posso ser pessimista nesse caso. Mas vamos aos fatos.

Junto com os atores globais surgem dezenas de outros crápulas aproveitando o retorno de mídia que :

Nestlé ajudará o natal no Alemão (eu fiquei sabendo pelo twitter do @vozdacomunidade)

Santander construirá árvore no complexo do alemão

Enfim, sem contar outros exemplos de empresas menores e ong’s que aproveitaram a oportunidade para crescer e conseguir capital fácil.

Aproveito para avisar que o Rio de Janeiro tem outras 1019 favelas e lembrar um outro dado aqui: o Complexo do Alemão tem IDH igual ao de Duque de Caxias, tendo também número semelhante de pessoas abaixo da linha da pobreza, qual a razão do Luciano Huck não fazer um programa especial lá? Inclusive eu iria vibrar ver a Ana Maria Braga cozinhando juntamente com a família Zito.

Com isso gostaria de desejar sinceramente nesse natal que se aproxima, que TODOS os que se aproveitam da pobreza e das condições dessas pessoas para se promover vão para o inferno. Insisto nesses “Posts Revoltados” para tentar fazer com que as pessoas fiquem mais críticas com o que assistem, lêem e ouvem. Se eu fizer alguém ao menos parar pra pensar nisso, já valeu a pena.

Boas novas (ou não)

Nova pesquisa demonstra comportamento do consumidor brasileiro.

Segue notícia do caderno Razão social:  http://oglobo.globo.com/blogs/razaosocial/posts/2010/11/19/consumidor-nacional-ja-opta-por-marcas-socialmente-responsaveis-341906.asp

O brasileiro está mais consciente e engajado quando se trata de ir às compras. Na hora de escolher que marca levar, o consumidor já opta pelo produto de uma empresa socialmente responsável. Foi o que mostrou a quarta edição da pesquisa Goodpurpose, realizada pela agência Edelman, com sete mil pessoas, em 13 países. Entre as empresas apontadas como aquelas que deixarão um legado social positivo, estão Natura, Olmo, Ypê, Nestlé e Coca-Cola.

Em comparação com o resto do mundo, o brasileiro está mais engajado também _ 64% dos entrevistados disseram que se envolvem em causas, contra 34% do resto do mundo. Os dados mostraram que o consumidor nacional acredita cada vez mais em sua condição de agente de transformação. Se comparado ao resultado de 2009, sua confiança nas instituições governamentais caiu de 62% para 52%.

Para Carol Cone, diretora da área de marca e cidadania corporativa da Edelman, os países emergentes, como o Brasil, já têm a figura do ‘consumidor cidadão’, que acredita em causas e fazem delas o centro de suas vidas.

Outros dados da pesquisa:

- 61% disseram que a qualidade é preponderante na decisão de compra

- 84% concordam que marcas e consumidores, ao trabalharem juntos por uma causa, podem fazer mais do que se agissem separadamente.

-80% tendem a recomendar marcas que apoiam boas causas em detrimento das que não o fazem.

- 74% trocariam de marca se uma outra, de qualidade similar, apoiasse uma boa causa.

- 94% dos consumidores acreditam que a atuação sobre propósitos deve equilibrar interesses sociais e de negócio.

- 76% creem que não basta às corporações simplesmente transferir dinheiro para causas; elas devem integrar os propósitos às suas estratégias e rotinas de negócio.

- 72% gostariam de trabalhar para uma companhia se ela apoiasse ativamente uma causa.

- 60% investiriam em uma companhia socialmente ativa.

Agora minhas considerações sobre a pesquisa:

87,46% das pessoas tendem a mentir nessas pesquisas para parecerem pessoas melhores.

92,56% das pessoas não querem se preocupar em ter que fiscalizar se as ações são sérias.

93,57% das pessoas doam R$10,00 ao criança esperança e acham que isso torna elas pessoas melhores.

73,6543% das pessoas trabalhariam numa empresa engajada socialmente, mas só se ela pagasse mais.

99,99% dos brasileiros ainda colocam preço e qualidade acima de qualquer outra coisa.

Estou para achar os 52% que ainda confiam em instituições governamentais.

100% de mim odeia esse tipo de pesquisa.

Tenho a impressão que 100% dessa pesquisa foi feita no mercado Zona Sul, acorda elite.

O que não deve ser feito

Exemplo daquilo que não deve ser feito e o segundo post da série socialwashing.

http://globoesporte.globo.com/futebol/futebol-internacional/futebol-espanhol/noticia/2010/11/com-presenca-de-rivaldo-fundacao-cruyff-inaugurara-campo-em-sp.html

A fundação Cruyff é um belo exemplo de como jogar dinheiro fora em questões supostamente “sociais”, a missão da fundação é construir campos de futebol mundo afora para a prática do esporte, mas eu pergunto: o Brasil precisa de mais campo de futebol?????

 

É um dos melhores exemplos de como desperdiçar dinheiro em questões que não mudam a vida de ninguém, isso se ainda não tiver nenhum político que vai fazer a inauguração e ganhar votos com isso ou coisas piores como lavagem de dinheiro, ressaltando que não há NENHUM indício disso.

 

Precisamos de menos futebol e mais escola, de menos bola e mais livro, adoramos ser o país do futebol, mas o Brasil merece mais do que isso.

 

Com todo respeito Cruyff, pega esse dinheiro e… leva de volta pra Holanda, investe  em muro pro país não afundar, em tratamento para drogados em Amsterdam, capacitação para prostitutas do Red Light District, tenho certeza que a Holanda tem problemas suficientes.

 

Ou então constrói campo lá, quem sabe a Holanda fica com o título mundial em 2018. 2014 já está garantido, com ou sem campo.

Socialwashing

Bem, o termo oficialmente não existe, então vocês estão vendo um neologismo em primeira mão!

Bem, o termo que estou criando agora advém do greenwashing, que segundo a wikipedia “é um termo utilizado para designar um procedimento de marketing utilizado por uma organização (empresa, governo, etc) com o objetivo de dar à opinião pública uma imagem ecologicamente responsável dos seus serviços ou produtos, ou mesmo da própria organização. Neste caso, a organização tem, porém, uma atuação contrária aos interesses e bens ambientais.”

Apesar do termo não existir (até agora) farei uma breve ligação entre os dois, vou criar o conceito a partir da construção acima, então ficamos assim:

“Socialwashing é quando a empresa prega ter ações socialmente responsáveis, utiliza isso como posicionamento de marketing, faz propaganda, porém não se compromete com resultados,  as ações não geram saída para projetos sociais, age de forma antiquada com seu público interno, se diz socialmente responsável, porém apenas cumpre as leis, o que é seu dever ou investe muito mais para divulgar uma ação social do que com a ação propriamente dita”

Logo me vem à cabeça o caso da Souza Cruz, vi em bares mais de uma vez que a empresa se declarava socialmente responsável por não apoiar a venda de cigarros a menores de 18 anos.  Mas se há uma lei que proíbe a venda de cigarros para menores de 18 anos eu recomendaria que a empresa econonomizasse a tinta, o adesivo e minha paciência.

Um caso que pode não ser unanimidade é o projeto de pintar favelas das Tintas Coral, até apontado pelo Trendwatching como um bom projeto, mas eu pergunto até que ponto isso muda a realidade de uma comunidade carente? Acredito que o retorno de imagem seja muito maior do que o custo com a tinta cedida, apesar de ser uma atitude de altruísmo estrito, onde poucos ganham e ninguém perde, discordo do investimento feito para divulgar a ação, constantemente nos intervalos de TVs em novelas e jogos de futebol, em uma matemática simples concluímos que o investimento em marketing foi MUITO maior que o investimento social realizado.

Outro caso curioso que me vem à mente é essa nova Coca-Cola plus, lembro de um tweet do @RafinhaBastos questionando que se agora que temos uma Coca-Cola rica em vitaminas, só faltaria o cigarro que curaria o câncer! Quer dizer que darei Coca-Cola para meus filhos quando tiverem carência de vitaminas? Nada contra agregar vitaminas em um produto, mas quando o mesmo é claramente nocivo quando consumido em excesso (como quase tudo nessa vida) isso pode deixar a consciência das pessoas mais leve e incentivar o consumo de modo excessivo.

Enfim, criar uma demanda a partir de uma ação moralmente questionável é por si só algo repreensível. Então, nasce aqui uma nova categoria neste blog, a de socialwashing.

Conhecem outros casos de socialwashing? Comentem!

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