Desde o livro “A riqueza na base da pirâmide” do indiano C. K. Prahalad, as atenções para classes menos favorecidas estão na moda. Prahalad explicita as oportunidades em desenvolver produtos e serviços para a “base da pirâmide” conhecidas no Brasil como classes C, D e E em geral.
Pois outro indiano revolucionou a forma de fazer negócios, o prêmio Nobel da paz Muhammad Yunus, defende que não só devemos pensar produtos e serviços para classes menos favorecidas, os novos tempos impõem que criemos empresas que tenham esse público como sua missão, empresas que tenham objetivos e metas voltados para erradicação da pobreza, combate à fome, diminuição do índice de doenças. Yunus concorreu ainda ao Nobel de economia pelo mesmo trabalho, fato raríssimo. Isso demonstra ainda como a atenção aos problemas da desigualdade e pobreza extrema vem aumentando.
Yunus ganhou o já referido Nobel pelo trabalho junto ao Grameen Bank, ou Banco da Aldeia em bengalês. O Grameen funciona como um sistema de microcrédito para pequenos empreendimentos. Yunus criou o Grameen em 1983, hoje está presente em diversos países do mundo e seu modelo vem crescendo pelo mundo inteiro. Inclusive grandes bancos passaram a investir ainda mais em produtos específicos para a “base da pirâmide”. O sucesso do banco e o baixo nível de inadimplência abriu os olhos dos banqueiros que até então encaravam pobres como inimigos e não como potenciais clientes.
Mas esse não é o ponto a ser desenvolvido. O que eu gostaria de mostrar hoje é um modelo desenvolvido também por Yunus, um modelo chamado empresa social, aqui no Brasil esse modelo se aproxima muito do que chamamos e esperamos de uma ONG. O que difere, de modo geral, é o modus operandi proposto, com base em um sistema eficiente, remuneração justa e sem distribuição de lucros aos acionistas, porém com um plano de negócios que viabilize a sustentabilidade financeira da empresa, no que nossas ONG’s deixam bem a desejar.
Penso ainda que nosso modelo proposto de ONG seja limitado juridicamente por não permitir determinadas transações, além de ter sua imagem desgastada junto à sociedade. Yunus fez sua primeira experiência junto com a Danone, fundando uma empresa que observa os princípios da sustentabilidade: mecanismos de ecoeficiência instalados, pouca tecnologia para gerar mais empregos na região, compras feitas de pequenos agricultores locais clientes do Grameen Bank e distribuição por conta de mulheres da rede estabelecida pelo banco. A empresa foi batizada de Grameen Danone Foods – uma pequena fábrica localizada em Bogra, no Norte de Bangladesh, produtora do Shoktidoi, Iogurte enriquecido com vitaminas e sais minerais. Sob meu ponto de vista o grande mérito de Yunnus foi ter conseguido uma excelente distribuição, rede confiável, enxuta, imagem reconhecida no mercado, acessível (os juros são muito mais baixos que os comuns) e eficaz. Enfim, critérios que toda excelente empresa que se preze deve prestar muita atenção para ser bem sucedida. Ser efetivo é ainda uma questão de responsabilidade social, quanto mais enxutos forem os custos maior o retorno possível para a sociedade.
Damos voltas e estamos novamente em torno de Fayol, Weber, Ford, Demming, Porter e outros gurus da administração, não estamos inventando a roda.
ONG ou não, o ponto no qual quero chegar é que ações que visem melhorar a questão social podem e devem levar em conta as melhores ferramentas da gestão, não devem depender de doações, mas podem buscar crédito, como qualquer outra empresa, e remunerar justamente esse crédito. A conclusão na qual quero chegar é que a administração SEMPRE deve basear uma empresa, seja ela social ou não.
A questão é que não há mais espaço para amadorismo com o dinheiro alheio, a filantropia tem sua importância, mas vejo como algo que vem perdendo força, o profissionalismo e a gestão substituirão o uso indiscriminado de capital e planos de negócios insustentáveis economicamente.
O que defendo são ferramentas de gestão como: Comprovação do retorno social e econômico, gestão de pessoas responsável e justa, distribuição enxuta e outras formas de gestão que venham a garantir um bom desempenho no negócio social, pois, para mim, não adianta ser social, tem que ser efetivo. Vamos pensar: se uma ong gasta R$ 10.000 por mês somente com uma criança ela está fazendo algo bom? Ela não deve ser cobrada para atingir resultados e gastar melhor esse dinheiro? Defendo o bom uso do capital para conseguir atingir mais pessoas e dessa forma melhorar seu “resultado social”.
Pensemos em outro caso, dessa vez mais prático, foi gasto no morro do bumba, que recentemente sofreu um desastre com as chuvas em Niterói, nele foram gastos mais de R$ 70.000 em reformas na comunidade. Não era melhor utilizar esse capital para construir outras casas em uma área que não fosse de risco?
Outro mundo é possível, ele já está aí ao nosso alcance, depende de nós!
